Artigos

Viabilidade do Confinamento em 2013 (Avaliação Parcial – 1º Trimestre)

A análise histórica da pecuária de corte brasileira nos mostra, que em suas melhores épocas (décadas de 70 a 80), era possível obter R$466,58 de lucro líquido/ha/ano (Tabela 1), sem que fossem realizados grandes esforços. Essa época foi caracterizada e fundamentada pela abertura de matas, com pastos fartos e, também pela baixa aplicação de tecnologias de produção, haja vista que nesse período produzia-se somente 5 arrobas/ha/ano, nada muito diferente do que produzimos hoje, diga-se de passagem.



A verdade é que os tempos evoluíram, as tecnologias e a pecuária também. Agora, na atual conjuntura econômica e de mercado, onde sustentabilidade e competividade com a agricultura reinam absolutas, o pecuarista, mais do que nunca, busca alternativas que possam incrementar os níveis de produtividade e de lucratividade da atividade pecuária, pois, produzir mais e com eficiência não é mais uma questão de necessidade e, sim, de sobrevivência.

Tecnicamente, sabemos que muitas tecnologias de produção estão disponíveis para o pecuarista, mas nem todas são “democráticas”, ao ponto de se tornarem acessíveis a todos, independentemente do tamanho ou sistema de produção. Além disso, cabe ressaltar que muitas tecnologias demandam mudanças ou ajuste na propriedade, o que acaba muitas vezes limitando sua aplicação ou utilização.

Dessa forma, fica evidente que a busca do pecuarista passa a ser, então, por uma tecnologia que promova ganhos expressivos de produtividade e, que de forma estratégica, possa ser utilizada como ferramenta de ajuste de capacidade de suporte do sistema, promovendo ganhos zootécnicos e financeiros à medida que sua utilização avança. A questão que surge é: qual seria essa tecnologia então?

A resposta é simples. É uma tecnologia que pode ser utilizada para todo o rebanho, independentemente da categoria animal. É relativamente fácil de ser implementada e a diferença entre o sucesso ou fracasso de quem à utiliza, recai basicamente na capacidade decisória e, para isso, o planejamento é peça fundamental. Estamos sim, falando do confinamento.

O planejamento envolve e previsão e a provisão do negócio. É a antecipação tanto dos problemas quanto das oportunidades que o negócio apresenta diante das variações do mercado. E olha que durante o ano são muitas as variações. É só acompanhar o mercado pecuário para ver o que tem acontecido com os grãos lá fora e seu reflexo aqui no Brasil.

Nesse sentido, para se elaborar uma decisão adequada, coerente, é preciso estabelecer critérios de planejamento, que envolvem uma séria de variáveis. Entre elas podemos citar algumas, como: número de animais a serem confinados, peso de entrada e saída, período de confinamento, ganho de peso almejado, alimentos disponíveis e preços, tipo de dieta (baixo concentrado ou alto) e, logicamente, a remuneração da arroba de boi gordo na época de venda. Essas são, portanto, informações básicas para que o pecuarista possa avaliar os custos e resultados do confinamento e decidir, sobre a utilização da tecnologia em menor ou maior escala naquele ano.

Quando falamos em menor ou maior escala é porque, nessa situação, estamos analisando o confinamento como uma estratégia para a entressafra, onde no período seco do ano - e estes têm sido drásticos - parte dos animais é terminada no confinamento, como forma de preservar as pastagens de uma taxa de lotação excessiva, o que resultaria em degradação das mesmas, caso isso acontecesse.

Bom, 2013 promete ser um ano pleno de incertezas e boa volatilidade. A começar pela oferta de animais, exportações, consumo interno, cenário macroeconômico e também variações do preço dos grãos, boi magro e remuneração do boi gordo, a dúvida que fica é: como fica a viabilidade do confinamento em 2013 nos principais estados confinadores? Para responder a essa pergunta temos que realmente simular os custos e resultados do confinamento. Para tanto, vamos analisar (Tabela 1) os preços dos principais insumos nos estados de São Paulo (SP), Minas Gerais (MG), Mato Grosso do Sul (MS), Goiás (GO) e Mato Grosso (MT). Há quem consiga preços menores, talvez produzindo ou comprando antecipadamente, mas a cotação do dia é essa mesma, caro pecuarista, pois afinal de contas, estamos, ainda, caminhando para a safra de grãos.

Para o boi magro (12@), a cotação da Bigma Consultoria indicou para hoje em SP o valor de R$1.181,69, para MG R$1.110,71, para MS R$1.141,02,00, para GO R$1.096,27 e para MT R$1.082,03

Em relação ao custo operacional, este foi estimado em R$1,20/cabeça/dia para todos os Estados.



Diante das opções e preços dos insumos para cada estado, procurou-se desenvolver as dietas de mínimo custo e lucro máximo com o programa RLM 3.2. Os animais considerados no cálculo são da raça Nelore, com peso inicial de 360 kg (12@) e final de 515 kg (18,03 @)

RC: 52,5%), tamanho corporal médio, machos não castrados e com desempenho médio de 1,660 kg/dia. Com essas informações, realizamos o cálculo do custo da arroba produzida e da arroba engordada no confinamento, conforme podemos visualizar no gráfico 1.



Gráfico 1. Custo da arroba engordada e da arroba produzida no confinamento, por Estado.

Ao analisarmos o gráfico 1, é possível avaliar que diante de uma maior precificação dos alimentos e também do boi magro para o estado de SP, maiores foram os custos da arroba produzida e também da arroba engordada. Situação contrária foi observada no estado do MT e GO, onde tivemos os menores custos para estas variáveis, respectivamente.

Em relação à composição dos custos operacionais totais no confinamento, no gráfico 2 podemos observar a representação dos mesmos, por estado.



Ao analisarmos o gráfico 2, pode-se observar que quanto maior o preço do boi magro e dos alimentos, maiores foram as participações desses componentes no custo de produção total. Em SP, estado com maior precificação do boi magro e da nutrição, os alimentos representaram 26,77% e o boi magro 64,95% dos custos totais de produção. Observa-se que, de maneira geral, os alimentos representaram de 25,75% (MT) a 26,15% (GO) dos custos e o boi magro de 63,61% (MG) a 65,09% (MT).

Para o cálculo do lucro operacional (R$/cabeça) consideramos os preços dos alimentos e do boi magro, cotados em 30 de janeiro de de 2013. Para a remuneração da arroba, consideramos diferentes cenários, partindo de uma remuneração mínima de R$90,00/@ e máxima de R$110,00, com variação de $5,00/@. No gráfico 3 poderemos avaliar a estimativa do lucro operacional diante dessas variáveis.



Gráfico 3. Lucro operacional (R$/cabeça) do confinamento, diante de diferentes cenários de remuneração da arroba.

No gráfico 3, podemos avaliar que com a remuneração mínima de R$90,00/@ a operação de confinamento não se viabiliza em todos os Estados, implicando, dessa forma, em prejuízo operacional. Com uma remuneração de R$95,00/@, somente nos Estados de MT e GO foi possível viabilizar o confinamento. A arroba remunerada em R$100,00 já viabilizaria o confinamento em praticamente todos os Estados, com exceção somente de SP, que teria o confinamento viável somente com uma arroba em R$105,00. Já com o mercado do boi gordo em R$110,00/@, em todos os Estados avaliados o confinamento se tornaria uma atividade interessante do ponto de vista econômico. A questão é: “Será que vamos ver esses números no balcão de compras dos frigoríficos?

É importante lembrar que na entressafra conta-se com uma oferta mais restrita de bois magros e, logicamente, dos insumos também, pois estamos com oferta restrita de grãos, haja vista a transição das safras no Brasil. Com isso, é natural que os custos do confinamento aumentem no período, independentemente do Estado em que se localiza o confinamento. Além disso, conforme citado no inicio desse texto, para o pecuarista que usa o confinamento como estratégia, dificilmente teremos os animais de 12 @ chegando ao confinamento tão precificados, ou seja, é natural que nos sistemas de recria/engorda ou ciclo completo o boi magro tenha um custo menor de produção, aliás é exatamente essa a vantagens desses sistemas, quando comparado com o confinamento negócio, que parte do principio de comprar os bois e os alimentos no mercado. E daí, vale o preço e a oferta do dia.

É neste ponto que chamamos a atenção para as possibilidades que o mercado futuro nos oferece. Através dele podemos transformar o risco em estabiildade e a incerteza em garantia de margem. Para quem não conhece de perto a ferramenta, é necessário entender alguns conceitos para enxergar seus benefícios.

A pecuária, assim como toda atividade que depende do clima para seu desenvolvimento, trabalha dentro de fases chamadas safra e entressafra. Teoricamente, sabemos que na safra chove e tem alimento para os animais, o que faz a oferta aumentar, e que na entressafra falta chuva e que isso impede o desenvolvimento das pastagens, fazendo o boi gordo sumir da escala do frigorífico.

Oferta maior traz preços menores, assim como oferta restrita faz o mercado subir. Para pecuaristas, principalmente confinadores, falar sobre isso é chover no molhado, mas é apenas uma pequena introdução ao que virá a seguir.

Observe:



Tabela 2. Evolução do mercado físico e efetividade da proteção ao longo dos anos

A tabela 2 representa o que o hedge faz pelo pecuarista ao longo dos anos. Nela, temos a representação do mercado físico do boi em maio ao longo dos anos, bem como a precificação do contrato de outubro naquele período e o que aconteceu efetivamente com a arroba em outubro do ano de referência. Fora isso, fizemos algumas continhas sobre as quais discorreremos.

Como sabemos, existe safra e entressafra. Portanto, o mercado futuro precifica em 100% dos anos uma valirozação do mercado entre maio e outubro, à qual chamaremos “Ágio” na tabela. Em outras palavras, até hoje o mercado futuro garantiu valorizações entre safra e entressafra ao produtor que buscou a Bolsa para proteger-se contra a volatilidade do mercado.

A pergunta que devemos nos fazer é: isso efetivamente acontece em todos os anos? A resposta é não e, além disso, em alguns anos a valorização que ocorre no mercado físico do boi gordo entre maio e outubro é irrelevante. Como exemplos disso temos os seguintes anos: 2004, 2009, 2011 e, recentemente, 2012.

Além disso, na maioria dos anos o mercado físico não chega a atingir o valor alcançado pela especulação do mercado futuro, como nos mostra a coluna “Físico out/ out.mai”.

Conclusão: protegendo o boi de “olhos fechados”, sem analisar o mercado e simplesmente travando a arroba em maio para vender o boi em outubro, temos uma vantagem de 0,65% sobre o resultado de quem especulou sem utilizar o mercado futuro, sem falar que não houve ano em que o mercado esteve abaixo do precificado no mês de maio. É claro que com o planejamento essa conta melhora. Se falarmos em mercado de opções, então, nem se fala!

Observe a comparação feita na tabela 3.



Tabela 3. Comparação entre a valorização do boi gordo entre maio e outubro quando consideramos o mercado físico, o mercado futuro e o mercado de opções no dinheiro.

A diferença com o uso das opções é que você garante um preço mínimo, mas não se limita de aproveitar uma alta forte quando ela ocorre. Assim, jogamos na média do ágio obtido com o mercado futuro a variação positiva em anos em que o físico superou aquilo que a Bolsa apontava em maio, o que melhorou o resultado de nossa simulação em incríveis 3,85% ao ano. Por isso, as opções podem parece um investimento muito alto à primeira impressão, entretanto ao longo dos anos ela se mostra sempre como a melhor alternativa diante das grandes incertezas.

Além disso, podemos também proteger o valor de aquisição do boi magro comprando contratos no mercado futuro para evitar ser surpreendido pela valorização típica do boi magro na entressafra.

Como sabemos, as commodities perdem valor real ao longo dos anos, o que aumenta a pressão sobre a eficiência de processos, diluição de custos fixos e gerenciamento de risco. Portanto, qualquer melhora em relação ao resultado terá um importante efeito na margem da atividade e no desenvolvimento da propriedade. Da mesma forma, o prejuízo também trará retrocessos ao sistema e, como bem sabemos, é sempre difícil recuperar um ano ruim. Ele compromete os bons anos seguintes.

Portanto, atenção às oportunidades que o mercado futuro oferece. Elas podem ser decisivas para o resultado final da sua atividade na sequência dos anos.

Zootecnista – Diretor Técnico da Coan Consultoria. E-mail: rogerio@coanconsultoria.com.br

Eng. Agrônomo – Diretor da Bigma Consultoria . E-mail: mauricio@bigma.com.br

Médica Veterinária e Pecuarista – Diretora da Agrifatto. E-mail: lygia@agrifatto.com.br

Área restrita

Entre em contato

Receber newsletter


Copyright 2013 Coan Consultoria