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Uso do leite descarte para bezerras: Vantagem ou Desvantagem?

Primeiro devemos definir o que é leite de descarte, é aquele que não pode ser comercializado devido à mastite, ao tratamento com antibióticos e também a falta de higiene na ordenha. Sendo considerado por muitos uma fonte “gratuita” de leite para alimentar bezerras. Contudo, tem-se questionado o valor verdadeiro do leite de descarte, principalmente quando estão associados aos riscos a saúde dos animais com o seu uso.

Deste modo, pode-se especular que a ingestão de leite com agentes causadores de mastite pode ser uma possível fonte de novas infecções da glândula mamária (mastite) em animais jovens, especialmente em novilhas. Este é um risco potencialmente alto quando as bezerras são criadas em alojamentos coletivos durante o período de aleitamento.

Nos sistemas de produção é comum hábito da mamada entre as bezerras logo após o fornecimento do leite e se esse leite fornecido contiver agentes patogênicos como o Streptococcus agalactiae ou estafilococos ambientais, pode ocorrer uma nova infecção, a qual geralmente só se manifesta depois do primeiro parto do animal, comprometendo assim a futura produção leiteira das novilhas.

Além da mastite propriamente dita, o leite descartado com resíduos dessa doença, pode transferir as bezerras, alguns tipos de bactérias e/ou outros tipos de microrganismos, como o mycoplasma que pode afetar gravemente a saúde do animal, como pneumonia, otite, problemas de articulação e artrite, deixando assim, os produtores mais duvidosos e preocupados em usar ou não esse leite.

Outra preocupação da maioria dos produtores e que se encontra nas criações de bezerras com aleitamento de leite descartado, chegando a afetar significamente o desenvolvimento das bezerras é a diarréia e causar enormes gastos com medicamentos e muitas perdas de bezerros nesta fase. Esta diarréia é causada principalmente pela transmissão das bactérias E. Coli, Streptococcus e Staphylococcus, que são encontradas normalmente no leite com mastite. Essas bactérias podem ser absorvidas diretamente pelo sistema circulatório e causar tal situação agravadora.

Além disso, acredita-se que o uso do leite descartado pode reduzir a digestibilidade da proteína, aumentar a taxa de morbidade e mortalidade e até reduzir a taxa de crescimento do mesmo e consequentemente enormes prejuízos na atividade leiteira.

Por outro lado, diversos trabalhos de pesquisa realizados na década de 70 e 80 demonstraram que em termos de desempenho o uso de leite de descarte no aleitamento de bezerras, apresenta resultados de ganho de peso semelhantes aos dos animais recebendo a mesma quantidade de leite normal.

A explicação para tal fato é porque o leite de descarte tem uma composição semelhante ao leite normal, com exceção dos resíduos de antibióticos e/ou mastite, que se auxiliado com uma forma de manejo adequada no fornecimento às bezerras, pode ser benéfico para o desenvolvimento do animal.

Deste modo, os produtores e técnicos, na prática, podem fazer uso do leite de descarte na alimentação de bezerras, principalmente se este leite for produzido por vacas em tratamento com antibiótico, mas só depois das primeiras semanas de vida, devendo-se ainda, evitar o fornecimento para animais que estão alojados em bezerreiros coletivos ou em caso de aumento da ocorrência de diarréia nos bezerros, ou ainda se tal medicamento estiver afetando de certa forma a imunidade do animal, criando uma possível resistência ao antibiótico na fase de novilha, podendo acarretar em grandes problemas de mastite e prejuízos enormes na futura criação.

Além disso, antes de utilizar leite de descarte para bezerras, existem as seguintes precauções a serem tomadas:

  • Verificar cuidadosamente o estado de saúde das vacas antes de usar o leite de descarte, principalmente de vacas contaminadas com o vírus da diarréia viral bovina (BVD) ou da bactéria da paratuberculose, pois estas podem infectar todos os seus bezerros rapidamente. Portanto se existir qualquer possibilidade de suas vacas estarem disseminando patógenos que possam infectar seus bezerros, não usar o leite de descarte de modo algum.

  • Não fornecer aos bezerros colostro de vacas com mastite em seu primeiro dia de vida porque neste período o intestino está permeável à entrada de bactérias, que causariam sérias infecções.

  • Só fornecer leite de vacas com mastite quando as bezerras estiverem alojadas individualmente, para prevenir a transmissão de microrganismos infecciosos pela sucção das tetas entre as bezerras, após a amamentação. O que levaria à maior incidência de animais parindo com mastite e quartos cegos.

  • Não usar leite com muito sangue ou com aparência diferente. Este leite provavelmente contém patógenos ativos, glóbulos brancos sanguíneos que combatem enfermidades e as quais podem não ser bem digeridos pelo sensível sistema digestivo das bezerras.

  • Não usar leite da primeira ordenha, após tratamento com antibiótico no aleitamento das bezerras. Este contém carga grande de antibiótico (a não ser que seja diluído em maior volume de leite sem antibiótico), pois o leite descarte contém antibióticos que podem afetar a parede interna dos intestinos reduzindo a habilidade de absorção.

  • Não usar o leite de vacas com mastite ambiental (causada por microorganismos como Escherichia coli ou Pasteurella.) Este tipo de mastite, em geral, é caracterizada pelo leite bastante aquoso e também por febre nos animais. Estes microrganismos são altamente infecciosos além de produzem toxinas que podem até causar aumento na taxa de mortalidade de bezerras.

  • Não se deve deixar armazenado o leite, especialmente se deixado por longos períodos (ex.: da ordenha da manhã até o aleitamento da tarde) em locais quentes ou até mesmo em temperatura ambiente, pois a carga microbiana no leite descartado aumenta rapidamente em exposição ao calor por um longo tempo, por isso é aconselhável utilizá-lo imediatamente após a ordenha.

  • Importante ressaltar que com o uso de leite de descarte os cuidados devem ser redobrados, principalmente com relação higiene dos equipamentos, a presença de moscas ou esterco agrava ainda mais a situação, portanto é imprescindível a limpeza rigorosa dos baldes e utensílios utilizados na alimentação dos animais. Ex: Os vasilhames devem ser lavados com detergente neutro, e em seguida desinfetados para não provocar diarréia. A importância do tratador é inquestionável, pois dele depende, em muito, o sucesso da operação.

  • O conceito de um ambiente "confortável, seco e fresco" deve ser aplicado na produção de bezerras, pois os agentes patógenos podem se disseminar em condições ambientais associadas à umidade e pouca ventilação e o problema ficar muito grave. Neste caso, o exemplo é do mycoplasma que pode ser transmitido de bezerro para bezerro apenas pelo ar, na forma de aerossol, todavia a transmissão via leite infectado parece ser a mais freqüente.

  • A pasteurização do leite descartado apresentou resultados positivos, diminuindo a morbidez e aumentando as taxas de ganho dos bezerros tanto antes quanto após a desmama. Todavia, este recurso só parece ser viável economicamente para grandes fazendas (mais de 300 bezerros nascidos anualmente).

    Entretanto, o leite de descarte pode ser uma excelente fonte de nutrientes para bezerras. Ele tem a composição físico-química semelhante ao leite normal e não pode ser usado para outros propósitos (riscos sérios a saúde pública e perda da bonificação pela qualidade microbiológica do leite...) então porque não usá-lo? Em muitos casos ele pode substituir o leite normal e/ou sucedâneo, principalmente no aproveitamento dos machos leiteiros para produção de vitelo.

    Porém os produtores devem ser orientados por técnicos e os mesmos devem analisar cuidadosamente e rever as precauções de tal prática de manejo para aquela propriedade, pois a criação de bezerras sadias e com ótimo desenvolvimento é o que garantirá no rebanho futuras matrizes, mais produtivas, e o sucesso na atividade leiteira.

    Além disso, os produtores devem estar atentos para os riscos a saúde e financeiros que o leite de descarte poderá causar quando ele é misturado no tanque de expansão, para aumentar o volume comercializado, e o mesmo é coletado pela indústria de lácteos ou mesmo quando ele, seus familiares e seus funcionários ingerirem este leite. Então a conscientização de técnicos e produtores das precauções do uso de leite de descarte será de suma importância produção de futuras matrizes sadias, produtivas e longevas.

    Ricardo Dias Signoretti é engenheiro agrônomo, Doutor em Produção Animal, Pesquisador Científico/APTA de Colina, SP e Consultor da COAN Consultoria.

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