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O risco da ingestão de plantas tóxicas presentes nas pastagens

Na pecuária brasileira, assim como em muitos outros países, uma significativa causa de prejuízos é a ingestão de plantas tóxicas. A exposição se dá, principalmente, por sua presença nas pastagens, pela contaminação acidental do alimento ou pelo oferecimento como alimento, sendo que, na época da seca, devido à baixa oferta forrageira, a palatabilidade se torna relativa e os animais mais jovens, buscam-nas.

As causas que levam os bovinos a ingerir plantas tóxicas são: deficiência nutricional, a qual pode provocar fome e levar o animal a consumir plantas que habitualmente não ingere; sede e transporte, acarretando alterações no apetite; excesso de animais em áreas escassas em alimentos; utilização contínua de agroquímicos nas pastagens ou áreas cultivadas, o que melhora a palatabilidade das plantas, favorecendo a ingestão das mesmas pelos animais.

O diagnóstico das intoxicações é realizado pelo conhecimento da ocorrência de plantas tóxicas na região, das doenças causadas por elas, à constatação dos sinais clínicos e a sua evolução. Recomenda-se aos proprietários rurais, a prevenção, seja por meio de capina periódica, mantendo o pasto sempre limpo e manejado, seja, cercar o local contaminado com as tóxicas dificultando o acesso a essa área.

Os dados epidemiológicos são de grande importância, tais como: a presença da planta, a toxicidade, a freqüência da doença, a época de ocorrência e as condições em que ocorre a ingestão.

Alguns autores destacam que estudos toxicológicos são importantes para o diagnóstico, quando se suspeita de uma planta, tais como as cianogências e as de intoxicação por nitritos, quando pode ser confirmada pela presença e/ou quantificação do princípio ativo. Na maioria das intoxicações causadas por plantas, não se conhecem os tratamentos específicos (antídotos), devendo ser realizados tratamentos sintomáticos, os quais muitas vezes, podem ser confundidos com picadas de cobra, raiva ou outra doença. Na maioria das vezes, o bom senso ajuda a salvar os animais intoxicados, mantendo-os à sombra, sem locomoção, fornecendo água fresca até a chegada do veterinário.

A intoxicação por plantas no Brasil é dificultada pelo diagnóstico e tratamento dos casos, conseqüentemente, subnotificando-os. Além disso, a crendice está muito presente na cultura popular, facilitando o uso indevido de vegetais.

No Brasil, o número de plantas tóxicas descritas é de 88 espécies pertencentes a 50 gêneros, mas nem todas estão descritas na literatura e têm comprovado, experimentalmente, o seu princípio tóxico por não produzirem quadros clínico-patológicos sob condições naturais. Apesar do grande número de espécies tóxicas, as identificadas como causadoras de perdas econômicas importantes são relativamente poucas.

Asclepia curassavica



Ipomea carnea var. fistulosa



Lantana camara



Com relação aos prejuízos diretos, a mortalidade dos animais é destacada quando afeta grande porcentagem do rebanho e, ainda, quando não há óbito, porém, há redução no ganho de peso e distúrbios metabólicos e reprodutivos.

A ingestão de plantas tóxicas pode causar ainda, sérios problemas reprodutivos, tanto por ação direta das toxinas quanto pelos efeitos sistêmicos causados por elas, podendo provocar morte embrionária (até 45 dias de gestação), aborto (45 dias até o final da gestação) ou ainda, mumificação fetal. Em fêmeas não prenhes, os efeitos tóxicos/térmicos podem influenciar na fisiologia ovariana levando a alterações nos gametas femininos comprometendo a capacidade destes de serem fecundados pelos espermatozóides.

Nos machos podem causar alterações na formação dos espermatozóides tanto pela ação direta quanto pelo aumento da temperatura corpórea que pode levar a quadros de degeneração testicular, causando no touro sub-fertilidade (baixa capacidade de fecundação) ou infertilidade. A degeneração testicular pode ser reversível, dependendo da gravidade e duração da injúria térmica causada no testículo, ou irreversível em casos severos e/ou crônicos.

Em se tratando de prejuízos indiretos, ou seja, gastos gerados pelo tratamento dos animais intoxicados, estabelecimento de medidas profiláticas e depreciação no valor de algumas propriedades, ficando ainda mais difícil, de estimarmos essas perdas.

Não podemos nos esquecer da contaminação de alimentos produzidos por esses animais como carne e leite, através dos resíduos de toxinas dessas plantas.

Sendo assim, o treinamento e capacitação de funcionários de campo são imprescindíveis para a identificação prévia das plantas tóxicas invasoras de pastagens, impedindo assim a redução dos lucros e prejuízos maiores.

Ruchele Marchiori Coan é engenheira agrônoma, doutora em produção vegetal e gerente de operações da Coan Consultoria

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