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A difícil arte de prever o futuro

Dizem que a administração é uma atividade que navega entre a arte e a ciência. Exige uma enorme organização de dados, informações, conhecimento e também exige um pouco de criatividade. É preciso visualizar o futuro, testar hipóteses, avaliar os impactos daqui a vários anos de decisões que serão adotadas hoje. É um desafio.

O número exagerado de variáveis no mundo de hoje exige mais dos produtores. Antes eram poucas as variáveis que incidiam sobre a produção agropecuária, menos ainda na pecuária. Atualmente a gestão de fazendas exige bem mais dos produtores em tudo que se possa imaginar.

Mas não é só nas fazendas. O mundo todo passa por isso. Cada vez mais fica complicado decidir ações futuras para melhorar a empresa. É por isso que pouco tempo atrás entraram em cena as “análises de opções reais” como metodologia para avaliar a viabilidade de projetos. São técnicas que permitem a análise de diversas variáveis que podem influenciar os resultados dos projetos.

Atualmente, o tradicional modelo baseado em taxa interna de retorno e valor presente líquido não são tão eficazes quanto antes para se avaliar o projeto.
Na rotina das empresas também há novidades. Produtores mais avançados na gestão dos números tentam implementar, ou elaborar para suas fazendas, programas de ERP (Enterprise Resource Planning), na sigla em Inglês, ou SIGE (Sistemas Integrados de Gestão Empresarial), na sigla em português.

Nas empresas rurais, naturalmente já incidem variáveis muito mais numerosas que nas empresas urbanas. Além das diversas oscilações mercadológicas ou conjunturais, há também o efeito climático e biológico, pois trata-se da produção de seres vivos.
Trabalha-se com vegetais ou animais sujeitos à sede, fome, doenças, fogo além de outros fatores que podem reduzir ou favorecer a produção. Pasmem, mas até a quantidade de sombra por mudança na quantidade de dias nublados tende a incidir no resultado final.

Organizar um sistema integrado de gestão empresarial para fazendas é difícil, mas não é impossível. Enquanto não existe um programa, e método de adaptá-lo eficientemente, é preciso trabalhar com o que existe. E hoje a opção para a grande maioria dos empresários é organizar completamente as informações de suas empresas, e usar os números para construir cenários futuros. É exercitar a simulação.

Com o auxílio técnico da Coan Consultoria, a Bigma Consultoria elaborou algumas ferramentas para simulação de resultados. Essas ferramentas, no entanto, só funcionam quando os dados contábeis e as informações de custos de produção da empresa estão organizados e refletem a realidade de campo da empresa. É preciso ser rigoroso com relação à qualidade da informação.

As primeiras ferramentas de simulação tem o objetivo de analisar a melhoria na suplementação mineral do rebanho e a inserção de confinamento no sistema, o tão comentado confinamento estratégico. A convite da Associação Brasileira de Marketing Rural, a Bigma Consultoria ministrou uma palestra na Feicorte, ocasião em que foi analisado um caso de empresa melhorando o seu resultado através da estratégia de nutrição do rebanho.

O exemplo adotado considerou uma empresa com estrutura adequada para produção, ou seja, currais, pastos, cercas, estradas, cochos e bebedouros adequados a bons resultados na produção pecuária. As pastagens eram bem formadas, mas não eram fertilizadas e nem corrigidas. O rebanho nelore de boa qualidade produzia aquém de seu potencial. O programa sanitário era adequado, usando controle preventivo de ecto e endoparasitos com produtor adquiridos em empresas idôneas.

A empresa, de recria e engorda, comparava no mercado animais desmamados entre 5@ a 6@, apenas machos. A área de pastagens total era de 1.015 ha e o rebanho médio de 1.450 cabeças. Todos os dados contábeis da empresa foram atualizados para os valores de 2009.

O resultado anual da situação inicial foi positivo, mas muito baixo em relação à média da pecuária. O lucro anual por hectare era de apenas R$3,88. Números da Scot Consultoria e do Cepea/Esalq/USP tem mostrado lucro médio por hectare na pecuária entre R$70,00 a R$140,00/ha/ano dependendo do sistema de produção e do período analisado – ano 2008 ou 2009.

O custo alto desta empresa é justamente a boa estrutura e o dimensionamento preparado para receber um maior número de animais ou permitir um giro mais rápido. O que é favorável passa a ser negativo, caso esteja presente e seja pouco aproveitado. O custo fixo aumenta minando o resultado.

A empresa trabalha com suplementação mineral balanceada no verão, e apenas sal com uréia durante o período seco. É com base nesta realidade que foram feitas as simulações. A estratégia de produção número 1, portanto, refere-se à atual tecnologia adotada na fazenda. Manejo simples de pastagens, com fornecimento de sal com uréia na seca.

Na estratégia número 2, que o produtor já havia decidido adotar, optou-se por melhorar um pouco a composição do mineral de verão, e foi inserido o sal proteinado de baixo consumo no período seco. O resultado foi um aumento do lucro para R$ 64,82/ha/ano, mantendo-se todas as demais variáveis.

A simulação da terceira estratégia inseria também proteinados de baixo consumo no período chuvoso, quando há melhor abundância de pastagens. Também previa a melhorar o protéico usado no período seco para os animais consumissem um pouco mais. O lucro aumentaria para R$172,35/ha/ano.

Observe que entre a estratégia 2 e 3 estão os lucros operacionais identificados tanto nas análises da Scot Consultoria como nas do Cepea. Os dados corroboram o que tem sido observado no campo, quando notamos que o produtor tem adotado a suplementação protéica durante o período seco.

Enfim, na quarta estratégia (estratégia 4) de programa nutricional inserimos a terminação em confinamento para 40% do total dos animais abatidos no ano. O lucro previsto sobe para R$221,74/ha/ano neste caso.

É vidente que todos os aumentos previstos nas despesas, e mesmo investimentos em estruturas, estão sendo considerados na análise. Tanto é que os resultados que foram aumentando até a terceira estratégia pioraram quando foram simulados suplementação de alto consumo para a seca e para o verão. Não deu prejuízo, mas seria melhor inserir o confinamento no sistema do que melhorar a suplementação a pasto durante todo o ano.

Vale ressaltar que essa simulação é um exercício com base em uma determinada realidade. Cada empresa precisa encontrar o próprio caminho para prever e decidir pela melhoria dos resultados econômicos. Depois do confinamento ainda foi inserido, no sistema, a melhoria dos pastos com o objetivo de dobrar o suporte da propriedade. Para tanto, aumentamos em 3,8 vezes o custo médio por hectare de pastagens, visando possibilitar tal carga animal.

Nesse caso, no que chamamos de estratégia 5, o lucro operacional mais que dobrou em relação à estratégia anterior, atingindo um lucro estimado de R$540,00/ha/ano.

Foram mantidos todos os programas nutricionais da estratégia 4. Observe a evolução dos resultados da simulação na figura 1.

Figura 1.

Evolução esperada do lucro operacional por hectare investindo em melhoria da estratégia de nutrição animal e no uso de pastagens na empresa



Fonte: Coan / Bigma Consultoria

Até a estratégia número 3 o produtor que já tem alguma estrutura, como é o caso do exemplo, consegue avançar sem muito investimento. A partir da estratégia 4 já há necessidade de investimento em estrutura de confinamento.

Embora seja um desembolso elevado de recursos, geralmente o investimento em estruturas para confinamento demanda cerca de 20% do valor do bovino que será confinamento, por unidade de capacidade estática, ou seja, para cada animal que cabe no confinamento.

É um investimento elevado, mas não é proibitivo. Trata-se de uma tecnologia acessível aos pecuaristas. Antes de se investir em confinamento, é preciso analisar se a empresa será capaz de incorporar toda a mudança da rotina sem comprometer o resultado técnico.

A estratégia número 5 já demanda investimentos pesados. Falar em dobrar o suporte animal implica em investir o mesmo valor do patrimônio existente em rebanho, na ampliação do gado.

Há também o investimento no custeio inicial. Até que estes animais comecem a gerar receitas na fazenda, o produtor precisa mantê-los na propriedade, sendo capaz de arcar com todo este aumento no custeio.

Além dos investimentos, o último passo ilustrado na figura 1 demanda mais planejamento ainda. O rigor técnico gerencial é bem superior às alternativas anteriores.

Novamente, é difícil mas não é impossível. Quanto mais cedo começar o plano, mais cedo os resultados serão colhidos. Alguns produtores tem aproveitado boas oportunidades para intensificar a empresa acelerando este processo de capitalização. Um exemplo é o uso da integração lavoura-pecuária. Outro exemplo é o uso de parceiros.

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