Artigos

Pontos Críticos para Determinação do Ponto Ideal de Abate

Por Rogério Marchiori Coan

Muitos técnicos e extensionistas nos questionam sobre quais os critérios que devem ser avaliados para definir o ponto ideal de abate de bovinos de corte terminados em confinamento? Sem dúvida alguma, para responder à essa pergunta é necessário ter informações importantes para a correta tomada de decisão, de forma a se obter lucratividade máxima de um lote de animais.

É relevante citar também, que as duas variáveis que mais impactam no lucro de bovinos confinados referem-se ao preço de compra, quando ainda magro, e o preço de venda para o frigorífico, quando gordo. Já se passaram muitos anos daquele tempo em que o preço de compra da arroba do boi magro apresentava deságio quando comparado com o preço de venda do boi gordo, quando pronto para o abate. Assim, é cada vez mais comum o pagamento de ágio na arroba do boi magro, o que já determina uma maior exposição de risco e à menor lucratividade do sistema.

Para os pecuaristas que conseguem comprar a arroba do boi magro mais barata que do boi gordo e ainda agregam valor na arroba vendida, mediante a rastreabilidade, premiação Europa e Cota Hilton), melhor ainda. Agora, se o pecuarista tem a oportunidade de comprar bezerros no momento de oferta, recriá-los com tecnologias de produção e à custo competitivo no pasto, com certeza ele terá dado um importante passo na obtenção de melhores margens operacionais na operação pecuária.

Quanto ao ponto ótimo de abate, este compreende a fase em que os bovinos apresentam equivalência entre o valor do ganho e o custo do ganho. Enquanto o valor do ganho for superior ao custo desse ganho, o animal estará ainda trazendo lucro para o pecuarista. Quando os dois se equivalerem, será exatamente o ponto em que o lucro é máximo. A partir daí o lucro começa a diminuir, já que o custo do ganho passa a ser maior que seu valor, até atingir zero. Em seguida, a conta começa a ficar vermelha, conforme pode ser visualizado na figura 1.

Os pontos apontados pelas setas indicam o momento do confinamento em que o lucro é máximo para um determinado lote de animais, que, nesse exemplo, variou em função do custo da dieta. Quanto mais cara for a dieta, mais cedo o animal precisa ser encaminhado para o abate, caso o objetivo seja a maximização do lucro. A partir desse ponto, começa a diminuir e, dependendo do custo da dieta, pode vir a se tornar negativo em um espaço de tempo não muito longo.

A maximização do lucro por cabeça ou curral de animais confinados pode não representar, todavia, o lucro máximo da operação. Pode ser que reduzir o lucro por boi seja interessante, comparativamente ao máximo econômico, desde que o cenário de engorda seja interessante ao ponto de se realizar mais de um “giro de engorda” na mesma estrutura. O lucro por boi pode ser menor, mas quando se multiplica pelo número de giros, ganha-se na escala produtiva, maximizando o lucro da operação.



Figura 1: Curva de lucro por lote, em função dos dias de cocho e do custo da dieta.

Para que seja possível construir a curva de lucro apresentada na Figura 1, é de fundamental importância ter em mãos informações relevantes e importantes para o próprio monitoramento cotidiano do confinamento. Dentre essas, o consumo de matéria seca (% P.V e kg MS/cab./dia) por curral é fundamental. É preciso conhecer de forma precisa e acurada o histórico de consumo dos animais (por curral e não apenas por linha), o consumo atual e realizar projeções de como será o consumo ao longo dos dias, até o final do confinamento. Ou seja, é imprescindível ter uma curva de consumo construída ou modelada, levando em consideração algumas variáveis importantes, como peso de entrada e genótipo dos animais. O custo/kg de matéria seca da dieta, o custo de operacionalização (manuseio, distribuição e depreciações) também devem ser conhecidos. Com estas informações, o pecuarista poderá, então, calcular o custo diário que cada curral de animais apresenta na operação. Ou seja, torna-se possível obter o custo completo da diária do boi dentro do confinamento.

Como já é de conhecimento de todos, a equação do lucro é calculada da seguinte forma:
Lucro = Receita – Despesa. Através da curva de consumo, do custo da matéria seca da dieta e do operacional, chegamos na “parte” das despesas da equação do lucro, que é a mais simples.
É evidente que, embutido dentro da curva de consumo está a eficiência de trato (mensurar exatamente quanto de dieta foi ofertada por curral) e o manejo de cocho (evitar ao máximo sobras, já que, além de representarem desperdício podem ser computados como dieta ingerida, levando a superestimativas do ganho de peso).

O próximo passo, e o mais desafiador, é chegar a uma estimativa do ganho de peso dos animais, dia a dia, ao longo do período de confinamento. A partir da curva de consumo e empregando modelos de crescimento desenvolvidos por sistemas nutricionais, como: LRNS, RNS, NRC, RLM, entre outros, torna-se possível estimar quanto cada animal ganhará de peso, de acordo com o tipo de dieta fornecida e o consumo esperado.

A lógica desses modelos é bem simples: a partir da dieta fornecida e do consumo de matéria seca, calcula-se a ingestão de cada nutriente importante para o ganho de peso (energia e proteína, principalmente). De acordo com o tipo de animal em questão (raça, peso, sexo, frame size), são geradas as exigências nutricionais. Se por um lado temos quanto o animal exige de cada nutriente e por outro quanto está consumindo, conseguimos determinar qual será o seu ganho e, ainda mais, identificar qual nutriente está sendo o mais limitante. O histórico nutricional prévio do animal antes de entrar no confinamento é outra informação importante, pois irá determinar a extensão do ganho compensatório, que modula o formato da curva de ganho de peso apresentada pelo animal ao longo do confinamento.

Por fim, é importante enfatizar que o que deixa receita não é o ganho de peso vivo, mas sim o ganho de carcaça! Dessa forma, é imprescindível determinar e conhecer a evolução da transferência de carcaça ou do rendimento do ganho de peso dos animais ao longo do tempo. Ou seja, quanto do ganho de peso vivo é transferido para ganho de carcaça, que é o que realmente interessa. Animais em ganho compensatório, por apresentarem crescimento muito intenso de tecidos não carcaça (vísceras e órgãos internos), apresentam menor rendimento do ganho do que animais em crescimento contínuo. Assim, é possível que mesmo apresentando um menor ganho de peso vivo, um animal tenha maior ganho de carcaça.


Área restrita

Entre em contato

Receber newsletter


Copyright 2013 Coan Consultoria